Na última segunda-feira, 24 de maio, um convidado especial esteve junto aos alunos da disciplina da manhã de Técnicas de Reportagem e Formas Narrativas do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS. Trata-se de Luiz Carlos Reche, que veio a convite do professor Juremir Machado da Silva para participar de uma simulação de entrevista coletiva. Nossa primeira entrevista coletiva. E logo com o chefe do Departamento de Esportes da Rádio Guaíba. Bem humorado como é, logo tratou de quebrar o gelo. “Tô me sentindo como o Dunga aqui. Cheio de gravadores.", brincou Reche. Segue abaixo a reportagem feita por mim, Pedro Trindade, na íntegra:
Quem vê Luiz Carlos Reche (7 de dezembro de 1963) desabrochar um sorriso com tamanha facilidade não imagina as dificuldades por que já passou. Nascido em Lagoa Vermelha, Reche por pouco não é um engenheiro químico, ou um médico ou um concursado da Caixa Econômica Federal. “Porque no interior a gente pensava o seguinte: o que dá dinheiro pra não ser pobre igual aos pais?”, recorda-se. No mesmo ano, Reche fez vestibular para Medicina em Passo Fundo e na UFRGS, para Jornalismo na PUCRS e em Rio Grande para Engenharia Química. Passou em 3 deles e optou por fazer Jornalismo, mas ressalta que embora tenha entrado com alguma convicção, ainda não era uma convicção plena.
O traquejo com o microfone antecede o período de faculdade. Vem dos tempos de colégio, época em que era presidente de sala de aula. Reche também era responsável por ler o comentário da missa. Trabalhou no comércio e isso o ajudou no contato com o público. Quando ingressou na Famecos, os professores não demoraram a reconhecer o seu talento. “Vim pra faculdade e os professores começaram a me enfeitar, dizendo que eu tinha uma boa voz, que eu sabia tudo de futebol, que eu tinha uma boa memória e aí eu fui me enfurnando, entrando meio que de intrometido”, brinca.
Formou-se em dezembro de 1986, mas um ano antes já era contratado da Rádio Guaíba. Entrou por intermédio de Lasier Martins, ainda que este tentasse demovê-lo da ideia já que, naquele período, a emissora passava por uma séria crise e vivia uma fase de transição com novo dono. No início foi rádio-escuta e plantão, até chegar à repórter. Em 1999, passou ao cargo de chefe do Departamento de Esportes, quando Paulo Sérgio Pinto foi para a Rede Pampa.
Em 1990, na Itália, faz a sua primeira cobertura jornalística de Copa do Mundo. Mas seus olhos brilham mais quando relembra-se da Copa de 1994, nos Estados Unidos. Não pelo título, mas pelo enredo que envolvia a competição. “Era uma pressão infernal, porque achavam que o Brasil não ia pra frente com aquele esquema de jogo e, além disso, pesava contra o fato que a Seleção não ganhava uma Copa há 24 anos”, conta com ar nostálgico. A Seleção Brasileira trazia na bagagem o fracasso da Copa anterior e o técnico, Carlos Alberto Parreira, estava armando um esquema tático com jogadores de pouco nome, na base da marcação. “Depois de toda aquela pauleira, convivência com intrigas e zombaria, tinha que dar certo. E ganhamos naquele ano no peito e na raça”, anima-se.
Questionado sobre como lida com a cobertura de um evento tão importante para o esporte, Reche não titubeia: "já fico doente antes, durmo menos. Tudo passa como um filme na cabeça, ainda mais que agora a exigência é maior, tem que trabalhar mais, tem que estar mais adaptado às novas tecnologias. Aumentou o desafio, a pressão e a responsabilidade.” Quanto à Copa do Mundo de 2014, que será realizada aqui no Brasil, o jornalista mostra confiança e otimismo. “Nós já vimos há pouco tempo, nos jogos Pan-Americanos. Nem parecia o Rio de Janeiro. É uma exigência da FIFA, eles são muito chatos”, brinca.
Quando perguntado acerca do excesso de estudantes de jornalismo que querem seguir pela diretriz do esporte, Reche fez uma ressalva: "muita gente acha que é fácil falar de futebol. Coisa mais difícil é falar de futebol. Se eu não entendo nada de economia, eu me preparo e vou dar show em 2 ou 3 dias. (...) Agora, o futebol se você não acompanha desde sempre, vai chegar uma hora que vai faltar aquela memória. A memória esportiva é que faz um bom jornalista esportivo."
O jornalista diz saber lidar bem com o fato de ser chamado de gremista por colorados e de colorados por gremistas. "Eu tenho a mesma fama tanto de colorado, como de gremista. Hoje não tenho dificuldade nenhuma. Eu tive mais quando fui setorista do Internacional, depois não. Já nem torço mais tanto pra nem A, nem B", diz. Quanto ao bairrismo, Reche vê não como um mito da imprensa do centro do país, mas como uma realidade. “Nós somos bairristas, mas eles (os paulistas) também são. Só que como o Rio Grande do Sul é menor, eles dizem que o nosso bairrismo é maior”, justifica.
No auge de seus 25 anos de microfone, Reche orgulha-se de sempre ter trabalhado na Rádio Guaíba. “A razão da minha fidelidade à Guaíba foi a reciprocidade. A minha relação de amor é única e invejável porque eu sempre fui bem tratado, correspondido, prestigiado e atendido em minhas reivindicações”, enfatiza. Convites foram feitos, mas prontamente negados. Luiz Carlos Reche foi convidado para trabalhar na Rádio Eldorado, de Criciúma (SC) e em 1991, o jornalista Telmo Zanini o sondou para ir para a Globo, mas em ambas o “não” foi a resposta final.
Reche sempre fez questão de mostrar que a Rádio Guaíba não vivia só de tradição, vivia de qualidade, de ter seu nome gritado nos estádios ainda mais em situações de desvantagem numérica. “E também de querer ganhar da RBS”, alfineta. E vai além: “a gente não pode se assustar com barulho ou com volume. A gente deve ter orgulho, saber trabalhar, tem que ter talento”. O chefe do Departamento de Esportes da Rádio Guaíba diz que inimizades com colegas de profissão é normal, mas é categórico: “pode falar mal de mim quem trabalhou comigo. Quem concorreu comigo, se falar mal de mim, é um favor”.
Assim é Luiz Carlos Reche, chefe de esportes, apresentador dos programas "Ganhando o Jogo" e "Repórter Esportivo", e repórter em jornadas esportivas. Na TV, apresenta o "Esporte Record". Além disso, é colunista semanal do jornal Correio do Povo. Ainda apresenta na Ulbra TV o "Cadeira Cativa", programa que fez por muitos anos também na extinta TV Guaíba (atual Record/RS). O menino que vendia pastéis em Lagoa Vermelha hoje é referência no jornalismo esportivo. Não à toa está indo para África do Sul daqui a alguns dias, para fazer a sua sexta cobertura de Copa do Mundo.
Por Pedro Trindade
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